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01/09/26

Biblioteca ateísta: Carta a uma nação cristã, de Sam Harris



- Título: Carta a uma nação cristã

- Autor: Sam Harris

- Editora: Companhia da Letras

- Ano de publicação: 2007

A ética do ateu



por Paulo Jonas de Lima Piva


*Versão modificada da palestra proferida na UNIFEOB (Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos), em 29 de maio de 2003, em ocasião do lançamento do livro O ateu virtuoso: materialismo e moral em Diderot, São Paulo: Discurso Editorial/Fapesp, 2003, organizado pelo professor Paulo Pereira Soutto Mayor. Artigo publicado originalmente em Cadernos de Estudos da Unifeob, ano 3, número 5, 2004, São João da Boa Vista, São Paulo, CD-ROM, p. 26-39.

**Estátua de Denis Diderot em Langres, sua cidade natal


Resumo: Durante muitos séculos, a religião, em particular o cristianismo, exerceu um monopólio absoluto sobre a ética, determinando de maneira dogmática e intolerante os valores e as regras de conduta na sociedade ocidental, baseados sobretudo na satanização de instintos humanos vitais, como o desejo sexual, por exemplo. Todavia, o pretenso laço indissociável entre fé e virtude foi desfeito por pensadores como o francês Denis Diderot (1713-1784), um dos vultos do movimento iluminista e da filosofia moderna, o qual demonstrou mediante a sua doutrina materialista que é perfeitamente possível ser ao mesmo tempo ateu e feliz, libertino e virtuoso.

Palavras-chave: religião – ateísmo – materialismo – prazer – ética.



“Por necessidade de recolhimento, livrei-me de Deus, desembaracei-me do último chato”
Emil Cioran, Silogismos da amargura.



1- Deus e o Nada

Em vez de “A ética do ateu”, este ensaio também poderia ser intitulado “Sem Deus nem tudo é permitido”, ou ainda, “Graças a deus, Deus está morto”. Nesse sentido, consideremos o seguinte aforismo de Emil Cioran (1911-1995), localizado no seu estonteante Silogismos da amargura, de 1952. Lá escreve o filósofo romeno: “Sem Deus tudo é nada; e Deus? Nada supremo” (CIORAN, 1991, p. 49). Em linhas gerais, neste aforismo encontra-se uma das mais radicais provocações e um dos mais difíceis desafios impostos ao pensamento metafísico e ético ocidental. Contudo, mantenhamos por um momento em suspensão a provocação e o desafio dessa sentença, à primeira vista enigmática, para antes alçarmos um voo pelo universo encantador da mitologia clássica, mais exatamente, pelo mito de Momo.


2- Momo e o ateísmo

O que era uma divindade para os gregos foi transformado no decorrer da história em rei, mais exatamente, no monarca irreverente e pançudo do carnaval hodierno. No fundo, afora o ladeamento das belas negras e das mulatas sensuais, o rei Momo dos nossos carnavais não difere essencialmente em nada do deus Momo da Grécia antiga. Este, para os gregos, era o deus da alegria, da folia e, em última instância, o deus da zombaria. Ele era insolente e trapaceiro, uma divindade que enganava e ridicularizava todos os demais deuses do Olimpo. Mas a sua diversão predileta era subverter a ordem do universo. Cansados de tanta estripulia e escandalizados com tantos males provocados por Momo, os deuses se reuniram e decidiram então expulsá-lo do Olimpo.

A pena de Momo foi ter de viver entre nós, mortais. Muito ressentido com a punição, Momo resolveu vingar-se dos seus algozes. E foi implacável em sua vingança. Momo passou a difundir entre os homens o ateísmo, ou seja, a crença de que os deuses não existiam, e que, portanto, a todos tudo era permitido, já que não havia mais nada para ser temido ou almejado. Sem a crença, o temor e a obediência aos deuses, as noções de bem e de mal ficaram sem fundamento, deixando assim de serem absolutas. O homicídio, o roubo e o estupro perderam seus significados criminosos. Como consequência, para a satisfação e escárnio de Momo, o caos e o desespero instalaram-se sobre a Terra.


3- A Bíblia e o ateísmo

A associação entre ateísmo e desagregação social, entre ateísmo e desespero, enfim, o vínculo entre a ausência de fé numa divindade e o imoralismo não é sugerido apenas pela mitologia grega, como pudemos constatar com clareza no mito de Momo. Se recorrermos a outras mitologias, como a mitologia judaico-cristã, por exemplo, encontraremos não só a associação entre ateísmo e imoralismo, mas também a associação entre ateísmo e insensatez, isto é, entre ateísmo e loucura.

No salmo 14 da Bíblia, por exemplo, um dos salmos de Davi, lemos que o homem sem deus é um insensato e que suas ações são “corrompidas e abomináveis”. Mais: lemos ainda nesse salmo, em tom de ameaça, que a hora desse homem sem deus um dia chegará (VÁRIOS, 2000, p. 959).

Tal afirmação — claramente preconceituosa e de má-fé, diga-se de passagem— causou grandes danos não só à ideia de ateísmo em si, mas sobretudo prejuízos incomensuráveis à reputação e à integridade física dos ateus. Não podemos esquecer que a mitologia e os valores judaico-cristãos moldam hegemonicamente há vários séculos todo o imaginário e toda a moral do Ocidente, e que durante uma parte significativa da história nortearam as ações institucionais, mais precisamente, as iniciativas políticas. Em função disso, muitos morreram por serem considerados ateus. Ou seja, muitos foram aqueles vitimados pela intolerância, pela arbitrariedade e pelo dogmatismo daqueles que levaram o salmo bíblico de Davi a sério, e o que é pior, às últimas consequências.


4- O ateísmo na história: do preconceito a Pierre Bayle

Mas, afinal, o que é ateísmo? Do ponto de vista da história do pensamento, tal questão é muito mais complexa do que aparenta. E ela se complica ainda mais quando misturamos o conceito de ateísmo com outros conceitos do universo metafísico, como impiedade, teísmo, deísmo, ceticismo, materialismo, espiritualismo, niilismo, entre outros.

Historicamente, encontramos na obra de Platão, ao que tudo indica, a primeira ocorrência dos termos ateu e ateísta. Entretanto, esses termos lá aparecem com um significado bem diferente do que possuem hoje. No século XV, os tradutores da obra de Platão traduziram esses termos como “ímpio”. Ou seja, ateísmo, no século XV, era sinônimo de “impiedade”. Contudo, um ateu é muito mais do que um ímpio. Ímpio, grosso modo, é aquele que não crê nos ensinamentos de um livro considerado sagrado ou nos dogmas de uma doutrina religiosa, seja ela oficial ou não. Isso, no entanto, não significa que ele não creia numa divindade. Em outras palavras, o ímpio crê numa divindade, logo, ele não é um ateu, pois o ateu é aquele que nega categoricamente a existência de um criador, de uma providência, de uma transcendência, em suma, de uma divindade.

O ímpio, contudo, pode ser um deísta. E o que é o deísta? Em linhas gerais, é todo aquele que tem fé numa divindade, mas não necessariamente na divindade de Moisés, Abraão e Cristo. O deísta é adepto de uma religião mais racional, ou seja, sem rituais, livros sagrados, revelações e milagres. Por outro lado, aqueles que creem no deus de Moisés, Abraão e Cristo, aqueles que têm fé na revelação, são os teístas. Mas no seio do próprio teísmo haveria uma divisão. De um lado, os teístas ortodoxos, ou seja, os teístas defensores de uma religião que seguisse mais rigorosamente os ensinamentos e os mandamentos da Bíblia. Do outro, os teístas heterodoxos, isto é, os teístas mais flexíveis e moderados quanto à aceitação do conteúdo bíblico.

O curioso é que no interior do teísmo podemos encontrar tanto protestantes e católicos entre os teístas ortodoxos quanto católicos e protestantes entre os teístas heterodoxos. Já aqueles que não creem em deus, mas também não descartam a hipótese da existência de uma divindade, são os céticos. Há também os agnósticos, ou seja, aqueles que consideram totalmente estéreis as discussões metafísicas, em particular as discussões em torno da existência ou não de uma dimensão divina.

De volta à ocorrência do conceito de ateísmo na história da filosofia, vemos que o termo foi muito pouco utilizado até o século XVI. Quando era empregado, era como sinônimo de ímpio, como vimos, mas também em polêmicas concernentes à Reforma, às obras de Maquiavel e de Rabelais. Nesse caso, aplicavam o termo como um xingamento, de maneira indiscriminada e sem nenhum rigor. No século XVI, por exemplo, chamavam Maquiavel de ateu do mesmo modo que chamavam Louise Labbé, uma das atrizes mais famosas da época, de prostituta. A ideia de ateísmo, portanto, não desfrutava de sentido conceitual, tampouco de consistência filosófica. Isso só começou a mudar significativamente na segunda metade do século XVII, quando Pierre Bayle (1647-1706) publicou em 1683 os Pensamentos diversos sobre o cometa. Nesta obra, Bayle desfez, pela primeira vez, o vínculo pretensamente necessário entre religiosidade e virtude e, por conseguinte, o elo também inerente entre ateísmo e imoralidade sustentada sobretudo pelos seguidores da Bíblia. Em outras palavras, Bayle — que, vale ressaltar, não era ateu, mas um deísta com traços céticos — demonstrou com o seu livro que uma sociedade constituída exclusivamente por ateus é plenamente possível e viável tanto do ponto de vista ético quanto do ponto de vista político. Ou seja, que uma sociedade de ateus poderia ser tão ou até mais virtuosa e bem organizada do que uma sociedade de carolas e beatos. Trata-se, na realidade, de uma apologia de Bayle, não do ateísmo como perspectiva cosmológica, mas do ateísmo como uma doutrina compatível com as idéias de bem, harmonia social e felicidade. Com essa atitude ousada, Bayle desmistificou finalmente um preconceito secular.


5- O ateísmo como conceito e doutrina: o caso do padre Jean Meslier

Mas foi no século XVIII, mais exatamente no início do Iluminismo francês, que o ateísmo deixou de ser um mero xingamento e uma idéia vaga para ganhar definitivamente o seu registro conceitual e filosófico. E, por incrível que pareça, o autor de tal façanha foi um padre. Seu nome, Jean Meslier. 

Jean Meslier viveu de 1664 a 1729, numa pequena aldeia ao norte da França. Segundo os estudiosos do ateísmo, o Meslier foi o primeiro pensador da história da filosofia a elaborar um sistema explicitamente ateísta (VERNETTE, 1998, p. 42). Em outras palavras, Meslier é, por assim dizer, o primeiro filósofo ateu propriamente dito da história da filosofia, pelo menos em termos textuais. Isso não significa que ele tenha sido o primeiro ateu da humanidade, o qual, aliás, é impossível precisar. O fato é que em sua obra radical e veemente Meslier, o padre ateu, proclama a uma certa altura que a justiça e a igualdade só se efetivarão na Terra no dia em que o último rei fosse estrangulado e enforcado com as tripas do último padre (MESLIER, 1970, p. 23). Trata-se de uma opinião nada comum a um padre. Aliás, não só a um padre, mas a toda uma tradição política que tinha na República de Platão um paradigma, o qual apregoava algo bem diferente do desejo de Meslier, ou seja, que a justiça só seria uma realidade no dia em que os filósofos se tornassem reis ou no dia em que os reis se convertessem à filosofia.

Meslier considerava os deuses, em especial o deus judaico-cristão, mitos, fábulas, engodos, artifícios sórdidos criados por espertalhões e por homens inescrupulosos para enganar os humildes, os desesperados e os ignorantes, e com isso consolidarem tiranias e servidões. Jesus Cristo para ele era um desses homens vis. O padre ateu o considerava um doente mental, um louco, um fanático, um charlatão.

Quanto à ideia de criação, tão fundamental às doutrinas religiosas, Meslier a refutava com escárnio. Para ele, a matéria era a única substância do universo, substância esta incriada e, portanto, eterna. A atitude repete-se em relação à natureza da alma, a qual, no seu entender, não era espiritual tampouco imaterial. O que as pessoas comumente chamam de alma nada mais seria do que manifestações materiais, expressões corporais específicas. Assim sendo, a imortalidade também seria uma quimera relacionada fortemente a interesses políticos sórdidos. Por meio das fábulas do paraíso e do inferno, os poderosos conseguiam domesticar as massas, obtendo sobre elas o controle e a submissão.

A obra de Meslier, intitulada Memória dos pensamentos e dos sentimentos de Jean Meslier, veio à tona somente após a sua morte, em 1729. E não podia ser diferente. Prevendo que sofreria terríveis represálias caso tornasse público em vida o seu demolidor discurso ateísta e anticristão, Meslier deixou seus manuscritos, em forma de testamento, para a posteridade. Pouco tempo após à sua morte, sua obra tornou-se uma das mais procuradas no mercado clandestino de manuscritos. E dentre os seus leitores mais ilustres destacaram-se Voltaire, o Barão de Holbach e, sobretudo, Denis Diderot.


6- Diderot: algumas peculiaridades biográficas

Diderot foi um dos grandes nomes do Iluminismo, mais precisamente da Ilustração francesa, um movimento intelectual que transformou radicalmente a vida da Europa do século XVIII em todos os aspectos, do científico ao político, passando pela moral, pelas artes e pela religião. Ele foi um dos paladinos da razão contra o obscurantismo e a tirania política. Prova disso foi a Enciclopédia, o maior empreendimento intelectual de todos os tempos, do qual ele foi o principal artífice.

Diderot nasceu no seio de uma família muito religiosa. Um dos seus tios era um eclesiástico influente. O seu irmão era um padre austero e fanático. Uma de suas irmãs tornou-se freira e acabou morrendo louca num convento. Sua outra irmã, também extremamente religiosa, morreu velha e donzela. E Diderot não fugiu à regra. Também seguiu carreira eclesiástica. Ele quis ser jesuíta, estudou para ser teólogo da Sorbonne, mas logo percebeu que gostava muito da vida mundana, em especial das mulheres. Era um libertino em todos os sentidos, ou seja, era um livre-pensador, um erudito em livros proibidos, e ao mesmo tempo um frequentador de bordéis e dos corpos de algumas das mulheres mais desejadas de Paris. Por causa disso, pegou doença venérea várias vezes. Numa dessas vezes, Diderot chegou a fazer um poema à prostituta que lhe passou sífilis. Esse poema diz entre outras coisas o seguinte: “Por dois escudos que fez você?/ Peguei-lhe a boceta e a fodi/ E pelos meus três escudos dois tostões um óbulo/ Tive um seio, uma bunda, a boceta e sífilis” (Apud BOTUL, 2001, p. 22).

Diderot foi ainda dramaturgo, um apaixonado pelo teatro e pelo ambiente de licenciosidade e de solidariedade no qual viviam atores e atrizes. Escreveu romances, contos, verbetes, diálogos, mas nunca tratados. Diderot, aliás, tinha aversão aos tratados filosóficos, aos pensamentos sistemáticos, e à linguagem filosófica incompreensível. Filósofo militante, tinha como sonho maior popularizar a filosofia, torná-la acessível a todos. Mas para que esse projeto pudesse ser concretizado, seria necessário antes uma mudança radical não só na linguagem filosófica, mas também na sua forma de expressão. Assim sendo, Diderot fez da literatura, especialmente dos romances, dos contos, dos diálogos e das peças teatrais, os veículos por excelência de difusão da filosofia para o povo.

O enciclopedista também foi casado, teve uma filha, foi perseguido e preso, pegou dinheiro emprestado e não pagou, quase passou fome, decepcionou-se com o poder, foi generoso, e teve várias amantes, dentre elas a imperatriz Catarina II da Prússia, de modo que Diderot amou a vida e a viveu com muita liberdade, intensidade e prazer.


7- Ateísmo, materialismo, fisiologia: a metafísica diderotiana

Ateu e materialista: eis a metafísica diderotiana em dois conceitos. Contudo, é importante dizer que Diderot foi antes de tudo um filósofo sensualista, um resoluto adepto do método experimental. Assim sendo, por filósofo ateu entendamos que Diderot recusou categoricamente a existência de uma divindade criadora e ordenadora da natureza e de um juiz supremo do bem e do mal.

Por materialista, entendamos que Diderot sustentava a tese de que havia na natureza uma única substância, e essa substância seria a matéria, a qual seria eterna, portanto, incriada, sem começo nem fim. Esta matéria — e é importante ressaltar — seria dotada de energia, a qual seria produzida pela própria matéria, uma vez que esta não é estática e sim muito dinâmica. Aliás, é desse modo que Diderot concebe o universo, ou seja, como uma massa de proporções inimagináveis formada por partículas dinâmicas soltas, ora combinado com outras, ora se decompondo aleatoriamente para formar e se desfazer em outros corpos.

Diderot foi um filósofo materialista também em outro sentido, no de refutar veementemente a ideia de uma alma espiritual e imortal. Para ele — tal como para o padre Jean Meslier —, o que do ponto de vista histórico sempre chamamos de alma nada mais é do que manifestações materiais, mais exatamente, expressões psicofisiológicas, as quais envolveriam cérebro, sistema circulatório e respiratório, enfim, o corpo em ação. E este é um tópico extremamente importante para compreendermos o materialismo de Diderot. Ocorre que o desenvolvimento das suas hipóteses e teses materialistas estava diretamente relacionado com as descobertas científicas da sua época, em particular, da biologia e da medicina. Valer salientar que esta relação de dependência entre o materialismo e a ciência começou praticamente com Diderot e continua ainda nos nossos dias. O desenvolvimento e as novas descobertas da genética, por exemplo — do mesmo modo da arqueologia, da astronomia e de outras ciências —, permanece repercutindo diretamente no aprimoramento do materialismo. Em outras palavras, como dizia Diderot, para ser um bom filósofo é necessário ser antes um bom fisiologista ou médico.

Com base nessa visão psicofisiológica do homem, podemos afirmar que Diderot é também um libertino no sentido epicurista, ou seja, alguém que, a princípio, valoriza as paixões. E valorizar as paixões significa, em primeiro lugar, inocentá-las de toda a satanização promovida pelo cristianismo durante séculos. Significa entendê-las como expressões puras e muito saudáveis do nosso corpo, em última instância, como expressões inocentes e vitais da natureza humana. E o que Diderot entende por natureza humana?

Nada mais do que a nossa composição psicofisiológica. E um libertino epicurista, isto é, um libertino moderado feito Diderot, calcula por meio da razão o desfrute dessas paixões. Dito de outro modo, uma garrafa de vinho do Porto envelhecido cinquenta anos ou uma garrafa de absinto — bebida esta que Diderot, aliás, muito apreciava — são, sem dúvida, para quem gosta, excelentes fontes de prazer, entretanto, podem se transformar em fontes de desprazer se dessas bebidas fizermos um uso exagerado. O mesmo poderíamos dizer em relação ao sexo. Mesmo na mais dionisíaca das orgias, há um momento em que o organismo dos amantes se sacia, não dando assim mais sinais de virilidade, logo, de limites.


8- A ética do ateu

Como podemos perceber, Diderot foi um grande apologista do prazer. O sexo, portanto, tem no seu pensamento um lugar e um papel fundamentais. O desejo, a concupiscência, enfim, o nosso popular e fascinante “tesão”, seria, aos seus olhos, o mais puro, inocente, prazeroso e vital instinto da nossa natureza, seja ele o desejo de um homem por uma mulher, de uma mulher por dois homens, de um homem por um outro homem ou de uma mulher por uma outra mulher. E Diderot vai mais além: como o homem é exclusivamente matéria e tudo o que existe na natureza está em constante e implacável transformação, o homem não estaria imune a essas transformações. Trocando em miúdos, o materialismo de Diderot é determinista, o que significa que, para ele, o homem não é livre e capaz de ser senhor dos seus sentimentos e paixões.

E, de fato, a experiência demonstra que não temos controle algum sobre o nosso coração. Muitas vezes gostamos de pessoas que não gostaríamos de gostar, odiamos quem não gostaríamos de odiar, e deixamos de amar pessoas que não gostaríamos de deixar de amá-las nunca. Essa visão determinista inviabiliza na raiz a instituição cristã do matrimônio indissolúvel. Para Diderot, é uma insensatez dois seres de carne e apetites, dois seres mutáveis e impotentes diante das transformações inesperadas dos seus sentimentos prometerem um ao outro amor eterno e coisas do gênero. Nesse sentido, a fidelidade, conforme Diderot, seria uma afronta à natureza humana, uma vez que os cônjuges não estão imunes de sentir atração por outros e outras. Ao mesmo tempo, reprimir tal desejo pode ter um custo muito alto. Por outro lado, Diderot admite ser possível sim que existam homens e mulheres cuja estrutura psicofisiológica possa ser apta à fidelidade. Como podemos perceber, Diderot é bastante flexível, admitindo todas as possibilidades. Assim sendo, ele não é um dogmático ou um intolerante. E não percamos de vista que Diderot assim raciocina no século XVIII, ou seja, mais de cem anos antes de Freud.

Enfim, é a boa relação do indivíduo com a sua sexualidade, é a harmônica relação do indivíduo com as manifestações da sua psicofisiologia, com as pulsões do seu corpo, com as expressões da sua natureza, que determinará a sua felicidade. E o que é felicidade segundo Diderot? É um estado de bem-estar resultante da satisfação de um apetite, de um desejo ou de um conjunto de emoções. É, portanto, um estado psicofisiológico, logo, uma situação efêmera e circunstancial. Nesse sentido, Diderot ainda afirma curiosamente que ser feliz é, antes de mais nada, um dever, uma obrigação que o nosso organismo implacavelmente nos impõe. Ora, se felicidade é viver em conformidade e em moderação com os nossos desejos e com as nossas paixões, se ser feliz é o dever supremo de todo ser humano, em que consiste então a virtude?

Diderot afirma que há somente uma única virtude: a justiça. E por que a justiça? Pela simples razão de que o dever de todo homem é ser feliz. De um modo geral, ninguém consegue ser feliz sendo vítima da injustiça, nem mesmo os injustos. Felicidade e justiça, isto é, dever e virtude, são, portanto, conceitos inerentemente relacionados na ética diderotiana. A felicidade depende da justiça, o que significa dizer que o dever depende da virtude.

A título de complemento, vale lembrar aqui as três razões que Crudeli, o personagem ateu e virtuoso de Diderot em Diálogo de um Filósofo com a Marechala, utiliza para justificar a sua boa conduta (DIDEROT, 1979, p. 201-209). Uma vez que deus não existe, já que tudo é permitido, por que Crudeli não rouba, mata ou calunia, como parece sugerir a lógica do ateísmo?

A primeira razão que impediria um ateu de ser à-toa seria o prazer que ele pode sentir em praticar o bem. A segunda razão é a educação recebida da família. Se um ateu, desde o berço, aprendeu a amar a virtude e a repudiar o vício, podemos concluir que este certamente não agirá sem escrúpulos. Por fim, a terceira razão apresentada pelo personagem de Diderot é talvez a mais convincente de todas. Um ateu não mataria ou roubaria simplesmente porque se assim agisse, sentiria na pele o peso das instituições mantenedoras da ordem, isto é, a repressão da polícia e desforra das leis. Ele poderia ser preso, ter a reputação maculada e, depois de ter cumprido a pena, ser banido para sempre do convívio social (PIVA, 2003, Cap. VI).


9- Conclusão: o ateu diderotiano e o duplo nada

É evidente que a reflexão ética de Diderot é muito mais complexa e contém muito mais detalhes e armadilhas do que aqui foram expostos. Não obstante, retomemos o, de certa forma, enigmático aforismo de Emil Cioran “Sem Deus tudo é nada; e Deus? Nada supremo”. Nele podemos perceber as duas faces do Nada no qual o homem está chafurdado: de um lado a ausência de Deus, do outro, o próprio Deus. Sendo Deus uma fábula, um mito, um artifício imaginativo e muitas vezes inconsciente do qual os homens lançam mão para garantir a si próprios uma estabilidade metafísica, moral e psicológica, conclui-se que Deus carece de realidade, de ser, carece de existência, ou seja, Deus é Nada.

Por outro lado, quando o indivíduo adquire a consciência de que a religião na qual ele depositava toda a sua fé nada mais era do que uma mitologia, mais precisamente, uma mitologia sem consciência de si, em suma, uma tentativa lírica e poética de encantar o mundo, de preencher o Nada natural e espontâneo dos seres e dos acontecimentos, enfim, quando o indivíduo religioso desperta para o fato de que deus não existe, o Tudo ilusório de outrora vira Nada.

Diante desse quadro ao mesmo tempo desesperador e fascinante apresentado por Cioran, poderíamos fazer a seguinte indagação: como um ateu do século XXI, às voltas com o fantasma do desemprego, com a ameaça constante da violência, com a falência das utopias, com o desenvolvimento da genética e com a massificação cada vez mais sufocante se portaria na relação com os outros seres humanos?

A ética diderotiana seria certamente uma fonte rica de subsídios para a resolução desse drama existencial, pois ela nos ensina que, embora Deus não passe de uma crendice, nem tudo é permitido, e que, mesmo imersa no absurdo e no nada, a vida ainda conta com o prazer no seu sentido mais amplo. Numa palavra, ele nos persuade de que a vida, a despeito dos seus dissabores, vale a pena ser vivida, sobretudo quando nos livramos do “último chato” (CIORAN, 1991, p. 50).


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Referências bibliográficas

1) BOTUL, J.B. A vida sexual de Immanuel Kant. Tradução de Isabel Maria Loureiro. São Paulo, Ed. Unesp, 2001.

2) CIORAN, E. Silogismos da amargura. Tradução de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro, Rocco, 1991.

3) DIDEROT, D. Textos escolhidos. Tradução de J. Guinsburg e Marilena Chauí. São Paulo, Abril Cultural, 1979.

4) MESLIER, J. Oeuvres complètes. Paris, Anthropos, 3 Tomes, 1970.

5) PIVA, P.J.L. O ateu virtuoso: materialismo e moral em Diderot. São Paulo, Discurso Editorial/Fapesp, 2003.

6) VÁRIOS. A bíblia de Jerusalém. Tradução de Vários. São Paulo, Paulus, 2000.

7) VERNETTE, J. L’athéisme. Paris, PUF, 1998.

12/07/26

Jesus Cristo na Memória de Jean Meslier



por Paulo Jonas de Lima Piva
Doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC)

17/02/24

A religião como embuste e mitologia de dominação, Jesus Cristo como charlatão ou fanático religioso megalomaníaco: os 360 anos do padre Jean Meslier



Professor responsável: Paulo Jonas de Lima Piva, doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e autor do livro Ateísmo e revolta: os manuscritos do padre Jean Meslier (Alameda Editorial, 2006)

Dia e horário: sextas-feiras, das 17 às 19 horas

Período: de 23/02/2024 a 03/05/2024 (10 encontros)

Modalidade: on line, gratuito, sem inscrição, nem certificado, e aberto a todos

Cronograma:
– 23/02: Quem foi Jean Meslier
– 01/03: Enforcar os poderosos sem escrúpulos com as tripas dos seus comparsas parasitas, os sacerdotes: Jean Meslier diagnosticador, Jean Meslier ideólogo
– 08/03: Memória dos pensamentos e sentimentos de Jean Meslier ou Provas da inexistência de deus: prefácio e primeira prova
– 15/03: Segunda e terceira provas da inexistência de deus
– 22/03: Quarta e quinta provas da inexistência de deus
– 05/04: Sexta e sétima provas da inexistência de deus
– 12/04: Oitava prova da inexistência de deus e conclusão
– 19/04: Esclarecimento e emancipação: a Carta aos curas
– 26/04: Testamento ou O Meslier de Voltaire
– 03/05: Luzes intensas, iluminismo radical: o Meslier de Michel Onfray

Realização:
Grupo de estudos sobre o ateísmo da UFABC (CNPq)
https://ateismoufabc.blogspot.com/

Mais detalhes:
https://ateismoufabc.blogspot.com/2024/01/jean-meslier-360-anos-1664-2024-curso.html

E-mail de contato: paulo.piva@ufabc.edu.br

09/01/24

"A religião como embuste e mitologia de dominação, Jesus Cristo como charlatão ou fanático religioso megalomaníaco: os 360 anos do padre Jean Meslier (1664-2024)": curso aberto, gratuito e on line



Curso aberto, on line e gratuito sobre Jean Meslier

Título: A religião como embuste e mitologia de dominação, Jesus Cristo como charlatão ou fanático religioso megalomaníaco: os 360 anos do padre Jean Meslier

Professor responsável: Paulo Jonas de Lima Piva, doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e autor do livro Ateísmo e revolta: os manuscritos do padre Jean Meslier (Alameda Editorial, 2006)

Dia e horário: sextas-feiras, das 17 às 19 horas

Período: de 23/02/2024 a 03/05/2024 (10 encontros)

Modalidade: on line, gratuito, sem inscrição nem certificado e aberto a todos

Resumo:
Há 360 anos, em 15 de junho de 1664, na região das Ardenas francesas, num vilarejo rural, sob o reinado absolutista, católico, intolerante e cruel de Luís XIV, nascia Jean Meslier. Padre de profissão, socialmente do baixo clero, Jean Meslier logo percebeu que a religião, todas elas, ao longo da história da humanidade, não passou de uma enganação muito útil a poderosos e oportunistas de todo tipo, que suas escrituras sagradas, pretensamente reveladas por uma dimensão sobrenatural e divina, não eram mais do que um amontoado de fábulas humanas, de narrações esdrúxulas, absurdas, inverossímeis e ridículas, muitas delas imorais inclusive, e que os seus líderes, ditos profetas e messias, foram, na verdade, ou trapaceiros, isto é, aproveitadores e exploradores da ingenuidade, da ignorância e do sofrimento alheio, ou fanáticos religiosos delirantes, sem nenhum senso de realidade, iludidos pelas suas próprias megalomanias de porta-vozes e incorporações do divino.

A fundamentação e a articulação racional de um diagnóstico tão radical, ousado e lúcido acerca da natureza da religião, das suas crenças e dos seus personagens, Jean Meslier nos deixou em forma de testamento, mais exatamente na forme de um manuscrito, que veio à tona postumamente, em três cópias, redigido por esse pensador solitário, na mais absoluta discrição e segredo, para não acabar trucidado pela intolerância e pelo amor ao próximo dos cristãos da sua época. O título do manuscrito, Memória dos pensamentos e dos sentimentos de Jean Meslier, o qual, aliás, infelizmente, não conta ainda com uma tradução integral para o português.

Objetivos gerais:
Três são os objetivos gerais deste curso inteiramente gratuito e aberto a quem se interessar.

O primeiro deles é aproveitar os 360 anos do nascimento de Jean Meslier, uma data de cumprimento de década, para torná-lo mais conhecido no Brasil, seja como pensador da religião, da política, do iluminismo, do materialismo e do ateísmo.

O segundo objetivo é mostrar, por meio da exposição da sua crítica e da sua cosmovisão, a relevância de Jean Meslier na história do pensamento moderno ocidental, mais precisamente, colocá-lo como um precursor do iluminismo francês, ao ter feito, no início do século XVIII ― portanto, antes de Voltaire, Diderot e Rousseau ―, da razão e da experiência os principais guias do conhecimento objetivo da realidade e da emancipação do ser humano, e por ter diagnosticado a fé e o obscurantismo como as fontes dos erros, das ilusões e dos embustes que tantos males causaram à humanidade.

Terceiro objetivo: ao explanarmos em detalhes, ao longo de doze encontros, a crítica epistemológica, ontológica, política e moral à religião e a todo o seu universo simbólico, institucional e humano ― em particular à religião judaico-cristã ― contida na Memória de Jean Meslier; ao ressaltarmos que este defendeu vigorosamente, em linguagem pedagógica, a razão contra a fé, o conhecimento contra a ignorância ― isto é, o empirismo contra o inatismo, o materialismo contra o dualismo, o ateísmo contra a superstição, a ciência contra as crendices infundadas ―, a lucidez contra a ilusão, a verdade contra o mito, o pensamento autônomo e crítico contra o dogmatismo e a reflexão tutelada, o livre pensar e a livre discordância contra a censura e a intolerância, o prazer calculado contra a renúncia ascética ao corpo, a igualdade contra as injustiças, a benevolência contra a crueldade, os oprimidos contra os opressores; e ao evocarmos tudo isso exatamente neste complexo momento da história contemporânea do Ocidente, em que a razão, a ciência, a universidade, a verdade, a laicidade, a tolerância, a igualdade ― e, sobretudo, a condição propiciadora e garantidora desses valores e instituições, que é a democracia ― estão sendo atacadas, desqualificadas e desacreditadas, lembrar Meslier e mostrar que o seu pensamento é muito mais contemporâneo do que parece ― de uma contemporaneidade que nos remete a Feuerbach, que anuncia Marx, Bakunin e Freud, e que inspira declaradamente Michel Onfray ―, significa acrescentar mais uma razão potente e emancipadora ao lado da civilização contra a barbárie.

Palavras-chave: Ateísmo, Fé, Laicidade, Política, Razão, Religião, Tolerância

Cronograma:

- 23/02: Quem foi Jean Meslier

- 01/03: Enforcar os poderosos sem escrúpulos com as tripas dos seus comparsas parasitas, os sacerdotes: Jean Meslier diagnosticador, Jean Meslier ideólogo

- 08/03: Memória dos pensamentos e sentimentos de Jean Meslier ou Provas da inexistência de deus: prefácio e primeira prova

- 15/03: Segunda e terceira provas da inexistência de deus

- 22/03: Quarta e quinta provas da inexistência de deus

- 05/04: Sexta e sétima provas da inexistência de deus

- 12/04: Oitava prova da inexistência de deus e conclusão

- 19/04: Esclarecimento e emancipação: a Carta aos curas

- 26/04: Testamento ou O Meslier de Voltaire

- 03/05: Luzes intensas, iluminismo radical: o Meslier de Michel Onfray


Bibliografia:
- MESLIER, Jean. Oeuvres Complètes. Préface et notes par Jean Deprun, Roland Desné et Albert Soboul. Paris: Anthropos, 1970 (Tome I); 1971 (Tome II); 1972 (Tome III).

- ______. Memória. Tradução de Luís Leitão. Lisboa: Antígona, 2003.

- ______. Mémoire contre la religion. Paris: Coda, 2007.

- ONFRAY, Michel. Contra-história da filosofia 4: os ultras das Luzes. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

- PIVA, Paulo J. L. Ateísmo e revolta: os manuscritos do padre Jean Meslier. São Paulo: Alameda, 2006.

- SOUZA, Maria das Graças de. ”O estranho testamento de um vigário de província: as memórias de Jean Meslier”. In: Transformação. São Paulo: Unesp, n. 8, 1985.

- VOLTAIRE. “Testamento de Jean Meslier”. In: Filosofia clandestina. São Paulo: Martins Fontes, Volume 2, 2011.


Realização: Grupo de estudos sobre o ateísmo da UFABC/CNPq

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